O poder da mudança

 Arcangelo Ianelli -  Composição em Azul , 1974

Arcangelo Ianelli - Composição em Azul, 1974

Este fim de semana estive em Detroit, no Estado de Michigan, EUA. Para quem não conhece a história, Detroit teve seu auge entre as décadas de 60 e 70 como a capital mundial do automóvel. Tive o prazer de visitar o museu que honra essa história, protagonizada por Henry Ford, um dos grandes alicerces da revolução industrial da década de 20.

Em seu sonho de tornar o carro barato e acessível a qualquer pessoa, Ford revolucionou a indústria automobilística com a linha de montagem, um método produtivo usado até hoje e aperfeiçoado ao longo dos anos que privilegia a eficiência de processos pela repetição em larga escala.

Ford era um entusiasta da inovação e o museu em sua homenagem não conta apenas a história do automóvel, mas descreve a evolução da humanidade, seus hábitos e costumes, por
meio da tecnologia. Por ironia, foi a própria evolução tecnológica que derrubou a indústria americana automobilística com a invasão dos carros japoneses, mais modernos, ágeis e
eficientes, a partir dos anos 80. As ruas de Detroit ainda guardam marcas deste impacto.

A Ford continua gigante, continua com sua base em Detroit e, como seu fundador, continua investindo em inovação. Montadoras americanas tradicionais como a Plymouth, Oldsmobile, Pontiac, Hudson e Studebaker não tiveram a mesma sorte (e competência). O que leva uma empresa a enxergar uma “ameaça” se aproximando a tempo de reverter os motores e evitar uma tragédia?

Mudanças radicais como a reinvenção da indústria automobilística vão acontecer, são inevitáveis e fazem parte da nossa evolução, da mesma forma como os automóveis destruíram
a indústria da carruagem. Ninguém se reinventa porque quer e sim porque precisa: é a necessidade que nos força a mudar. São as ameaças que nos tornam fortes e melhores.

Tudo o que precisamos é nos prepararmos para que as mudanças não se tornem ameaças. Quando estamos em nossa zona de conforto não somos estimulados o suficiente para nos mantermos atentos e conectados. Estar no topo alimenta nossa vaidade, orgulho e nos torna cegos às mudanças provocadas por quem também almeja um espaço no topo. Quando você está no topo, você dita as regras, você é honrado e respeitado. Todos o temem e o seguem. Ser o dono da verdade e impor as condições pode ser uma grande vantagem, mas também é uma grande armadilha, pois é muito fácil perder de vista o que está acontecendo à sua volta.

Quem está atrás é quem precisa se mexer e provocar a mudança. A Toyota era uma dessas empresas que estavam atrás, mas fez bem a lição de casa. Enviou seus especialistas a vários
pontos dos EUA. Dirigiram seus carros, falaram com pessoas, observaram seus hábitos, entenderam como se locomoviam, o que carregavam, para onde iam, com quem iam, para fazer o quê. Aprenderam tudo sobre como os americanos usavam seus carros e o que valorizavam. Chegaram à conclusão que, ao contrário do que a própria indústria americana
apontava, o consumidor americano queria um carro mais econômico, mais ágil e confiável. Em 1966 a Toyota lançou o Corona, desenhado apenas para o consumidor americano. Um ano
depois já era o terceiro carro mais vendido do país. O resto é história.

Da mesma forma que a revolução industrial provocou mudanças radicais e irreversíveis nos campos político, econômico e social, a revolução da computação provocou outra onda
irreversível de mudanças no mundo inteiro. E assim as mudanças continuarão chegando, em grandes ondas ou restritas a áreas específicas e com baixo impacto, mas em todos os casos sempre serão raras as pessoas e instituições que abraçarão as mudanças como algo bom e positivo.

Resistir à mudança é um comportamento natural do ser humano. Quando enfrentamos situações de incerteza, aprendemos, batalhamos, nos adaptamos, para finalmente nos sentirmos confortáveis com a nova situação. Quando atingimos esta condição, não queremos que nada mude para que não enfrentemos todo o processo de aprendizado e adaptação novamente.

A primeira reação quando antevemos uma mudança que pode representar uma ameaça é rejeitá-la, menosprezando-a, criticando-a ou simplesmente ignorando-a. Menosprezamos uma ameaça quando a subestimamos ou quando temos excesso de autoconfiança, como no caso dos líderes da indústria automotiva americana. Ignoramos uma ameaça quando não temos mais a capacidade de enxergar por que estamos demasiadamente envolvidos na manutenção do status quo.

Essa ‘cegueira’ acontece porque acabamos presos em nossos próprios paradigmas, nosso 'jeito certo de fazer as coisas’ ou ‘verdades absolutas’. Se o mundo ouvisse e acreditasse nestas verdades absolutas, não teríamos computadores pessoais hoje, porque o presidente da IBM Thomas Watson disse que só existia mercado para apenas 5 computadores no mundo em 1943. O telefone não ganharia escala comercial porque a Western Union havia declarado que a ‘geringonça’ tinha inconvenientes demais para ser levada a sério. O cinema nunca se tornaria um dos maiores entretenimentos porque seu próprio criador, Auguste Lumiére acreditava que sua invenção era apenas uma curiosidade científica sem futuro. Nem luz elétrica teríamos se dependêssemos do reitor da Universidade de Oxford, Erasmus Wilson, que disse que ninguém mais ouviria falar de luz elétrica depois que acabasse a exposição de Paris em 1879.

Não se esqueça, as mudanças são inevitáveis e nós sempre estaremos envolvidos na mudança, seja como agentes da mudança ou como objetos das mudanças. De um jeito ou de outro, podemos resistir, mas é importante termos a consciência e a visão para interpretar a mudança da forma correta, isto é, como oportunidade ao invés de ameaça e, assim, tomar as decisões mais apropriadas.

Quem está no topo tem melhores condições para se acomodar e desfrutar de sua posição privilegiada, mas são justamente estes que também possuem melhores condições para criar novas regras e protagonizar as mudanças que os outros deverão absorver.

Tenha a coragem de sair de sua zona de conforto e faça o mesmo com aqueles à sua volta se você quiser obter o melhor de si e dos outros.

Por Marcos Hashimoto

Co-fundador da Polifonia e Professor de Empreendedorismo na Universidade de Indianapolis - EUA, consultor de negócios e especialista em inovação corporativa.

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