Efeito Florence: como você sabe se você é bom de fato?

Por Polifonia

Como você sabe se tem perfil empreendedor? Cada vez que eu pergunto para meus alunos ou em uma palestra quem julga ter perfil empreendedor, quase todos levantam a mão. Bem, pode até ser verdade, mas sou forçado a crer que, ou as pessoas não sabem o que é perfil empreendedor ou se superestimam. A autoimagem do empreendedor brasileiro é supervalorizada, principalmente entre aqueles que construíram uma carreira corporativa de sucesso e se julgam aptos para empreender com o mesmo desempenho.

Tem um filme em cartaz que ilustra muito bem os problemas da falta de percepção sobre si. Estrelado por Hugh Grant e Meryl Streep, Florence – quem é esta mulher? (Título esquisito em relação ao original ‘Florence Foster Jenkins’) conta a história real da milionária Florence, amante da música que, nos anos 40, perseguiu o sonho de ser uma grande cantora. O problema é que ela cantava muito mal.

Em mais uma interpretação estupenda de Streep, a milionária tinha uma imagem muito equivocada sobre sua capacidade de cantar. Seu desempenho era constrangedor, para não falar hilário. Contribuiu para esta autoimagem uma série de artimanhas conduzidas por seu marido Bayfield (Grant), um aristocrata inglês que sempre a elogiava, selecionava apenas amigos para as audições da esposa, pagava mais do que bem o professor de canto e evitava o contato com críticos se música ‘menos tolerantes’.

Embora a imagem que o empreendedor tem de si seja ampliada na maioria das culturas ocidentais, na cultura brasileira o ambiente social desempenha muito bem o papel de Bayfield para mascarar nossa autoimagem. O brasileiro tem dificuldades de falar diretamente uma crítica negativa, ele evita se indispor falando a verdade e prefere distorcer os fatos para ser bem visto do que ser honesto e sincero com relação às pessoas. Muitas vezes não somos bons em certas competências, mas ninguém nos diz isso porque ninguém quer ficar mal com ninguém.

Rica e vaidosa, Florence acaba sendo seguida por um séquito de bajuladores, falsos e interesseiros. Todos os elogios, flores, críticas positivas, convites para apresentações e festas a levam a crer que ela é o máximo como cantora. Sua autoconfiança vai às alturas a ponto de se julgar apta a se apresentar no Carnegie Hall, o templo nova-iorquino dos grandes espetáculos. A despeito de todos os esforços de Bayfield para evitar a tragédia que se anuncia, Florence faz sua apresentação e a cortina finalmente cai e revela para ela quem ela realmente é, se não pela plateia, cuja reação inicial foi contornada de forma magistral por amigos de Florence, mas pelo golpe mortal desferido pela crítica mordaz e vexatória do principal jornal da cidade.

Também para o empreendedor, ter dinheiro pode ser ruim para ele, pois suas incompetências também podem ser facilmente escondidas com dinheiro. Com dinheiro, podemos cometer erros e não incorporar os erros como aprendizado. Sem aprender, continuamos tomando as mesmas decisões e agindo do mesmo modo, sacrificando o negócio, perdendo bons funcionários, perdendo clientes, desperdiçando material e sangrando o caixa. Não passar pelo duro processo de aprendizado do início do ciclo de vida do negócio pode ser fatal quando o negócio passa a depender apenas dos recursos que gera.

Assim como Florence, para quem a fama e o dinheiro abrem facilmente o caminho rumo ao Carnegie Hall, mas aumenta também o risco com a maior exposição fora do círculo de amigos, para o empreendedor, quando o negócio se torna maior e mais complexo, os erros cometidos pelo empreendedor decorrentes de seu excesso de autoconfiança e falta de autoconhecimento não poderão mais ser corrigidos e a descoberta sobre seus defeitos pode chegar tarde demais.

A saída para esta miopia do empreendedor? Existem várias, mas todas passam por um processo em que o empreendedor é obrigado a abrir os olhos sobre si mesmo. Pode ser por meio de um mentor, uma consultoria, um conselho consultivo, um sócio ou parceiro ou qualquer um que tenha a liberdade de falar ao empreendedor o que ele de fato precisa ouvir, a verdade sobre suas competências e limitações como empreendedor.

Também existem cursos que provocam este despertar. São poucos, mas são eficazes. A Polifonia é um deles. O curso, cujas inscrições estão abertas para a próxima turma que começa em agosto, é uma jornada de autoconhecimento e relacionamento interpessoal de 4 meses de duração que se concentra no desenvolvimento das competências necessárias para o empreendedor se tornar protagonista de sua vida e seu negócio.

Se você vai empreender, evite o efeito Florence, procure saber no que de fato você é bom e que defeitos você tem, de preferência, antes de iniciar sua trajetória empreendedora.

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