Conheça a si mesmo

Imagem: Felipe Morozini 

Imagem: Felipe Morozini 

Toda esta onda em torno do tema empreendedorismo, principalmente provocada pela mídia em torno de histórias de sucesso de grandes empreendedores brasileiros, tornou o status de empreendedor desejável por muitos jovens que ingressam no ensino superior em busca de uma formação básica para começarem suas startups. Todas as vezes que eu trato do tema e discutimos sobre os traços e características dos empreendedores, não me surpreendo mais quando uma boa parcela, bem mais da metade dos alunos, se julga empreendedora, com muita segurança de sua opinião e orgulho.

Empreendedores são empreendedores porque apresentam um conjunto de características que os ajudam a superar as dificuldades típicas enfrentadas na fase inicial do empreendimento. Destas características sempre se destacam a resiliência, liderança, criatividade, tenacidade, determinação, foco, persistência, comunicabilidade dentre várias outras. Os jovens universitários são tão cheios de si que acham que já estão prontos.

Um dos alunos, por exemplo, alega que é empreendedor porque é comunicativo e todo empreendedor tem muita habilidade em se comunicar. Ele não sabe, mas o que ele julga ser uma qualidade é na verdade um defeito, ele fala demais. Outro diz que tem bastante autoconfiança, mas na verdade ele é arrogante, pois tem excesso de autoconfiança. Um terceiro aluno é bastante criativo, o que poderia ser visto como uma qualidade empreendedora, mas ter muitas ideias geralmente reflete em defeito quando não existe a capacidade de executá-las.

O meu ponto é que não tenho a menor dúvida que muitos alunos possuem várias das características empreendedoras, mas, como tudo na vida, o que é bom pode se tornar ruim quando em excesso e existe uma tendência da natureza humana de se identificar com o que nos é familiar e de nosso domínio. Quando enfatizamos estas características o que acontece é que uma virtude se transforma em um defeito. Excesso de autoconfiança, excesso de criatividade, excesso de comunicabilidade, excesso de empatia, excesso de determinação.

Quando falamos que quem quer se tornar empreendedor precisa desenvolver sua autoconfiança, este conselho só vale para os inseguros e introvertidos. Se a pessoa que já é autoconfiante seguir este conselho se tornará arrogante, e cego, pois não enxerga mais nada além de suas convicções e não ouve ninguém além de si próprio.

Isso vale para quase todas as características ditas ‘empreendedoras’ ou de ‘liderança’. Se persistência é uma qualidade empreendedora, a teimosia é o defeito. Se a organização é uma qualidade, a burocracia é o defeito. Se a flexibilidade é a qualidade, a falta de consistência é o defeito. Se a visão do todo é a qualidade, a falta de detalhamento é o defeito. Para toda qualidade há sempre um defeito quando ocorre o excesso: o empreendedor é aquele que busca a justa medida, para que seu empreendimento decorra da melhor maneira.

Vamos olhar agora um pouco para o outro lado, os defeitos. Você acha que não é empreendedor porque tem muitos defeitos que empreendedores não tem, certo? Vamos lá, veja alguns casos típicos: você não se julga empreendedor porque nada que faz dá certo. A tolerância ao fracasso não é um defeito, é uma qualidade do empreendedor. Ou porque você não foi pra universidade, mas a ênfase na formação acadêmica acaba racionalizando demais as pessoas, tornando-as rígidas e inflexíveis. Ou ainda porque você não gosta de assumir riscos, mas é o medo de assumir riscos que faz com que os empreendedores se preparem melhor e enfrentem os riscos com mais cautela e planejamento.

Qual o significado disto tudo? Se você não sabe se já tem pleno domínio dessas características, não saberá se precisa desenvolvê-las ou não. Se resolver enfatizar o que você já é bom, pode cair facilmente no lado do defeito. Por isso que alguns empreendedores são teimosos porque são determinados demais, outros tentam ser amigos de todos mundo porque praticam demais a empatia, alguns não conseguem se relacionar com pessoas porque são auto suficientes demais, tem os que não conseguem lidar com problemas do dia-a-dia, pois acreditam que devem olhar para o futuro sempre.

O que nos falta – a todos e não só aos jovens - é o autoconhecimento, saber quem realmente somos. Quando você não conhece a si mesmo o suficiente, facilmente cai nas armadilhas dos estereótipos, assumindo para si aquilo que não é seu. Quando você não sabe quais são seus defeitos e virtudes, acaba interpretando mal suas necessidades de autodesenvolvimento e acaba por transformar suas virtudes em defeito inadvertidamente. As lições podem ser ensinadas para todos, mas as pessoas são diferentes entre si e não devem assumir que todas as lições são necessárias para todos. Apenas se apropriam das lições certas aqueles que têm plena consciência de que precisam desenvolver as habilidades específicas.

Por isso que, se quer mesmo se tornar empreendedor ou líder, a primeira lição é: descubra quem você realmente é. O domínio de quem você é vai ajudá-lo a identificar que ferramentas precisa dominar, que conhecimentos precisa adquirir e que caraterísticas precisa desenvolver. O processo da descoberta de si desnuda suas fraquezas e descortina as avenidas do seu autodesenvolvimento, dando mais foco e mais eficácia às suas decisões sobre quais cursos fazer, quais experiências viver, em quem se espelhar e onde buscar as referências que precisa.

Existem vários caminhos para aprofundar a consciência sobre si mesmo. Você pode fazer terapia, coaching, aconselhamento, pode conseguir um mentor, pode ler livros de filosofia, auto-ajuda, pode fazer testes psicológicos, meditação e auto-reflexão:  ferramentas e técnicas não faltam. Na própria Polifonia, o primeiro terço do Curso de Protagonismo Criativo é focado na jornada do autoconhecimento. Acreditamos que o processo de formação do empreendedor ou líder protagonista passa obrigatoriamente pelo autoconhecimento.

Não importa qual caminho você escolha, já posso avisar que não é um caminho fácil. Se estiver fácil, é porque você não está indo fundo o bastante. Navegar na superficialidade é conhecer apenas a camada maquiada de nós mesmo. A verdadeira jornada do autoconhecimento nos leva a uma confrontação com um ‘eu’ que pode até mesmo assustar. Se as práticas são certas, não desista, a dor da autodescoberta vale aqui também. A dor é maior quanto mais fortes forem nossas convicções. Por isso ela é necessária. Esteja pronto e aberto ao mais importante aprendizado de nossas vidas, aprender sobre si mesmo.

Por Marcos Hashimoto

Co-fundador da Polifonia e Professor de Empreendedorismo na Universidade de Indianapolis - EUA, consultor de negócios e especialista em inovação corporativa.

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