Risco ou segurança

Imagem: Pedro Garcia 

Imagem: Pedro Garcia 

Esta semana me lembrei de quando me dediquei a ensinar minha filha a andar de bicicleta sem as rodinhas de apoio. Não foi fácil. Minhas costas que o digam. Não tenho mais idade para correr segurando uma bicicleta por trás. Eu diria que a maior dificuldade que ela encontrava era a falta de confiança em sua própria capacidade de conseguir se equilibrar sozinha. Na verdade, ela não precisava mais das rodinhas, era evidente o seu equilíbrio, mas ela não se arriscava a andar sem elas.

As rodas configuravam o seu apoio psicológico, suas ‘muletas’ sem as quais todo o peso do insucesso, do fracasso, da incerteza, recaía sobre suas costas, causando, invariavelmente, dores físicas também. Sabemos o que é isso. Também temos nossas próprias ‘muletas’, essas ‘rodinhas de apoio’ que nos mantém firmes na segurança do passado, mas que nos impedem de crescer e evoluir.

Por isso mesmo até que compreendi bem sua resistência a tirar as rodinhas, natural e inevitável: ‘Por que tirar as rodinhas, pai? Eu ando bem com elas!’. Não dei muita atenção, pois logo surgia a imagem de uma mulher adulta andando de bicicleta ainda com as rodinhas. Todas as amigas dela já andavam sem as rodinhas. Só a convenci quando comecei a falar de uma delas. ‘Olha, a sua amiga Vitória, que é menor e mais nova do que você já anda sem rodinhas, você vai ser a única a andar como criancinha?’ Bingo! Infalível! Ela resolveu tentar.

Mas o medo ainda era mais forte. Por mais que eu tentasse lhe acalmar dizendo: ‘Calma, pode ir firme que o pai está segurando’, ela não se sentia segura, titubeava e pedia para parar, chorando e querendo desistir. ‘Não filha, você não vai desistir, eu estou aqui para te segurar’. ‘Mas pai, eu não consigo’. ‘Como não consegue? Como pode falar que não consegue se ainda nem tentou?’ Eu sabia que se parasse naquele momento ela demoraria para retomar coragem e superar o trauma do fracasso. Tinha que ser naquela hora, era o momento apropriado.

Muitas vezes, temos medo de nos arriscar em empreitadas mais arrojadas. Preferimos a segurança de nossas próprias rodinhas (leia-se: ‘Emprego’). O pior é que nem sempre podemos contar com o suporte de um pai ou mãe que nos dê apoio, coragem e incentivo. Tampouco podemos contar com informações precisas sobre o momento certo para tirar as rodinhas e muitos fracassos acontecem por conta da falta de percepção do ‘momento certo’. E por último, não tentamos por causa da maldição do ‘não consigo’. Declarar a falta de competência é geralmente a desculpa mais usada pelos fracassados e preguiçosos, dos que desistem rápido ou nem sequer tentam. Às vezes, nem mesmo você pode dizer se consegue ou não. Quando possível, temos que tentar, mesmo se for para fracassar e assegurar que de fato não conseguimos. O fracasso, para empreendedores, é a energia que faz a dificuldade ser vista como desafio. Esta energia gera a determinação para insistir até conseguirmos.

E quanto à minha filha? Bem, acompanhei andando atrás dela, segurando-a para que não caísse, ainda na tentativa de lhe dar segurança, quando percebi que eu estava assumindo o posto de ‘rodinha’, sobretudo quando a vi rir e pedir: ‘Vamos pai, mais rápido!!!’. Com os bofes de fora, achei que era a hora: ‘Está bem, pode ir!’ e soltei.

Ela pedalou mais forte e não se deu conta, por alguns longos segundos, que nada mais a mantinha equilibrada senão a força de suas pedaladas. Avançou uns 10 metros e então se virou, viu que eu não estava mais lá, balançou e quase caiu, mas restabeleceu o equilíbrio e gritou triunfante: ‘Consegui! Consegui! Vivaaa!!!’

Que nada minha filha, quem conseguiu fui eu! Tenho certeza que se tivesse mais fôlego iria continuar empurrando a bendita bicicleta. Vocês pensam que é fácil ser pai? Que é fácil soltar a bicicleta sabendo do risco de seu maior patrimônio ir por terra? Se eu pudesse, continuaria segurando a bicicleta até ela cansar de andar. Mas eu sei que não pode ser assim, que temos que soltar nossos filhos quando é chegado o momento.

Um grande amigo meu, dono de uma confecção, está preparando seu filho para assumir os negócios. O filho já se sente preparado, eu e todos os que o conhecem sabem disso. O resto do aprendizado só virá quando ele for exposto sozinho às situações do dia-a-dia. Mas o pai ainda reluta em deixá-lo tomar decisões por conta própria, chegando a me confessar: ‘É fogo ser pai! Não queremos nunca que nossos filhos se dêem mal e queremos sempre protegê-los. Eu sei que preciso largá-lo agora, mas algo dentro de mim ainda vê uma criança na minha frente e não um homem’.

Só para continuar a analogia da bicicleta eu diria a ele agora: ‘Tudo o que você está fazendo é segurando a bicicleta para seu filho. Do seu lado, o esforço é maior, enquanto que para ele só fica a sensação da velocidade diminuindo, e com ela o ímpeto, a energia e a disposição que nem sempre voltam quando você se der conta do atraso que lhe está impondo. Quantas vezes você não caiu e esfolou o joelho enquanto tentava andar de bicicleta? Cair faz parte, tanto quanto se levantar e tentar novamente. Quem não corre riscos na vida está, na verdade, correndo um risco ainda maior: o risco da paralisia.

Por Marcos Hashimoto

Co-fundador da Polifonia e Professor de Empreendedorismo na Universidade de Indianapolis - EUA, consultor de negócios e especialista em inovação corporativa.

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