Desligamento ou renovação?

Imagem: Iracema Trevisan

Imagem: Iracema Trevisan

Algumas lições que temos na vida, infelizmente, só podem ser aprendidas na prática e no sofrimento. A demissão é um grande fantasma na vida das pessoas, seja porque vivem ansiosas nos seus empregos em constante tensão pelo medo do desemprego, seja porque já passaram pela experiência que lhes deixou marcas que nunca se cicatrizam.

Eu já passei pela experiência três vezes em minha carreira profissional e devo dizer que foram os três momentos mais transformadores da minha vida. Muito do que sou hoje e do que acredito como meu jeito de encarar a vida é fruto destes três momentos.

Minha primeira demissão aconteceu em 1995. Entrei como estagiário em uma multinacional americana e foi o meu primeiro emprego da minha carreira em informática. Não preciso dizer que a demissão foi um dos piores sentimentos que eu vivi até então, afinal era o fim abrupto de 13 anos de dedicação. Abrupto, neste caso, foi a impressão que eu tive quando tudo aconteceu, mas, na verdade, o processo já havia começado há alguns meses: eu que não estava lendo os sinais, e este foi o meu grande aprendizado.

Quando se trabalha por 13 anos na mesma empresa, você acaba se acomodando. Não acha que algo vai acontecer com você. As promoções que vão acontecendo ao longo do tempo reforçam esta ilusão. Eu não percebi que eu já não tinha a mesma disposição e a mesma garra do início de carreira. Eu não me dava conta que estava adotando a postura defensiva de deixar o barco solto, na rotina do dia-a-dia. Minhas maiores emoções estavam fora do emprego, acompanhando a chegada da minha primeira filha. No trabalho, só o piloto automático. Eu estava tão anestesiado pela rotina que não entendi o que aconteceu. O choque, a incredulidade, a incompreensão, a revolta e a decepção foram as fases inevitáveis que antecederam a fase mais importante: a reflexão.

Apenas quando recapitulei os meus últimos anos é que me dei conta de quem havia me tornado. Eu era infeliz. Não gostava do que fazia, não me sentia motivado porque eu via os desafios como fardos. Queria fazer outras coisas, mas me sentia preso porque acreditava que dependia daquele emprego para manter minha família que iria crescer. Depois de três meses neste processo de introspecção e autoconhecimento veio o último sentimento: Gratidão. Não só pelo que eu vivi naquela empresa, mas por alguém ter feito o favor de me empurrar de volta para a vida.

A minha segunda demissão aconteceu em 2004. Já depois de 3 anos de ter dado uma guinada na minha carreira ao iniciar minha trajetória no meio acadêmico. A experiência foi igualmente dolorosa, mas as condições eram bem diferentes, pois eu havia aprendido a lição. Desde a primeira demissão eu nunca mais me acomodei. Sempre que eu sentia sinais da rotina, inventava algo diferente, um novo projeto, uma nova iniciativa. Nesta pequena Faculdade no interior de São Paulo minha energia estava a mil por hora. Depois de um bom início como professor, o dono da escola me abriu a grande oportunidade de montar um curso de pós graduação em Administração de Empresas. Junto com um colega, fizemos de tudo, da concepção do programa, contratação dos professores, divulgação e promoção, recrutamento de alunos até o acompanhamento da execução da primeira turma bem de perto para garantir a qualidade.

O curso não só deu certo como foi eleito por dois anos seguidos um dos melhores MBAs do Brasil pelo ranking da Revista Você S/A. A conquista ganhou até outdoors espalhados pela pequena cidade do interior para celebrar. Estávamos muito orgulhosos e com a corda toda para continuar a trajetória de sucesso com a terceira turma que iria começar na semana seguinte. Quem pode esperar ser demitido neste momento? Pois foi o que aconteceu.

Eu estava tão em choque, que não me lembro direito da reunião com o dono. Eu via que ele mexia a boca, falando coisas para mim, mas eu não conseguia ouvir. Estava lutando pra poder respirar e controlar o turbilhão que acontecia entre a minha mente e o coração que parecia que ia falhar a qualquer minuto. Ele balbuciava alguma coisa a respeito de ter um coordenador mais barato para o curso. Só depois de algum tempo, já em casa e recuperado do choque, é que comecei a conectar os pontos.

Como o dono da escola não tinha muita certeza do sucesso do curso, sua proposta original era que eu dividisse o risco com ele de forma que o meu salário fosse um percentual dos lucros do programa. A primeira turma deu prejuízo, que ele cobriu. A segunda turma atingiu o ponto de equilíbrio. Justamente a terceira turma, que já estava lotada graças ao ranking, é que eu ia começar a ganhar dinheiro. Muita ingenuidade me fez trabalhar de graça por dois anos.

Felizmente o impacto financeiro não foi muito grande, pois já tinha outras atividades como consultor em andamento, mas descobrir sobre a natureza humana foi um grande choque. Eu já conhecia muitas histórias de problemas éticos em sociedade, mas nunca havia sentido o problema na pele.

Desde este episódio fiz várias outras parcerias, muitas boas, outras nem tanto, mas nunca mais cai na armadilha de acreditar cegamente na boa vontade das pessoas. Contratos, termos de compromisso, negociações e formalização de acordos passaram a fazer parte da minha estratégia profissional. A ingenuidade da confiança irrestrita é uma faca que, infelizmente, só corta de um lado, mas é totalmente cega do outro. Exigir a formalização de acordos nunca é mal visto, não é uma afronta, pelo contrário, é sinal de profissionalismo e seriedade. Lição duramente aprendida.

A terceira demissão foi totalmente esperada, o que pode parecer estranho, pois como alguém pode esperar ser demitido? Foram 7 anos dedicados para uma das melhores instituições de ensino do país. Um grande aprendizado, sem dúvida alguma. A Faculdade prezava pela excelência em tudo o que fazia, o que também significava tolerância muito baixa às falhas e erros. Demitir nunca foi um problema para eles, pois a confortável posição de melhor do país significava também uma fila enorme de bons profissionais esperando por uma oportunidade.

Com o passar dos anos, eu via gente muito boa, talentosa mesmo, ser demitida por pequenos deslizes, detalhes que seriam desculpáveis em outras instituições, mas não ali. Depois que aprendi a não me acomodar mais e estar sempre à frente de novos projetos e implementando ideias novas, percebi que o preço da inovação é o risco. Arriscar-me em algo diferente, sem ter a certeza de que poderia dar certo, passou a fazer parte da minha rotina. Os resultados positivos mais do que compensavam os riscos. Foi assim que surgiu a primeira competição de inovação corporativa no país, uma linha de pesquisa em empreendedorismo corporativo, uma nova metodologia de ensino de empreendedorismo e outras novidades.

Eu sempre soube que alguma destas ideias não daria resultados positivos logo de cara e quando isso acontecesse, minha hora chegaria. Quando chegou, não me surpreendeu. Agradeci os sete anos naquela instituição e me despedi de todos. Sem mágoas, nem ressentimentos. Veja o que é a maturidade. Ao invés de lamentar o que deixava para trás, eu olhava para as oportunidades que estavam à minha frente e para a possibilidade de poder me dedicar a outros projetos que estavam pendentes.

Para mim, a demissão não é mais um fantasma. Nem sempre nossos empregadores estarão dispostos a nos manter como colaborador por toda a eternidade. A demissão é natural e pode surgir independentemente de sua competência e dedicação. Ela pode ser justa ou injusta, pode ser inesperada ou antecipada. Pode parecer difícil pensar em coisas positivas sobre a demissão quando ela acontece, por isso é importante aprender a ler os sinais de que algo vai mal. Todo processo de desligamento tem um preâmbulo, sinais de que alguma coisa não vai bem. Estes sinais podem surgir no relacionamento com seu chefe, no tipo de tarefas que lhe são designadas, com um esfriamento na relação com as pessoas do departamento, vários tipos de sinais podem surgir. Se estivermos atentos podemos perceber estes sinais e nos antecipar, seja nos preparando para o inevitável, seja sendo proativos e nos desligarmos antes que o façam por nós.

De uma forma ou de outra, em todos os casos é sempre um convite para refletir sobre sua vida, suas prioridades, promover o autoconhecimento, refletir sobre nossos erros e acertos, rever os planos para o futuro, reforçar crenças e princípios e retomar contatos. Veja o desligamento do emprego como uma oportunidade de renovação, para começar de novo do zero, sem os erros, sem os vícios, corrigindo fraquezas e aberto para novas experiências. Uma nova chance de fazer certo e assim crescer, seja profissionalmente como na vida.

 

 

Por Marcos Hashimoto

 

Co-fundador da Polifonia e Professor de Empreendedorismo na Universidade de Indianapolis - EUA, consultor de negócios e especialista em inovação corporativa.

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