Sem regras para a criatividade

Imagem: Rita Wainer

Imagem: Rita Wainer

Esta semana tive uma experiência interessante com meus alunos no curso de Administração. Ensino empreendedorismo e os alunos são de graduação. Eles estão desenvolvendo um projeto e cada aula eles precisam avançar no projeto de acordo com minhas orientações. Como a atividade vale nota, eles se preocupam em fazer tudo certo, dentro das minhas expectativas. No começo, eles faziam muitas perguntas para saber exatamente o que eu queria. Ao final das aulas, nem sempre era possível tirar todas as dúvidas deles então eu enviava um email com as instruções detalhadas. Após o primeiro mês eu me dei conta que estava enviando email para os alunos praticamente após cada aula com descrições detalhadas, passo-a-passo, com o que era para eles fazerem. Eles nem se davam mais ao trabalho de fazer perguntas na aula, pois já esperavam meu email até o final do dia.

Observando os trabalhos deles, as coisas pareciam ir muito bem, pois os trabalhos estavam bons, seguindo acuradamente as minhas detalhadas instruções. Não é para menos, eu dizia quantas páginas deviam entregar, com qual formatação de fonte e espaço, quais fontes deveriam usar para a pesquisa, que perguntas fazer aos entrevistados, quantos tópicos deveriam cobrir e assim por diante. Não por acaso, todos os textos eram muito parecidos e eu achava que estavam fazendo um bom trabalho. Os alunos felizes, eu feliz pelo desempenho deles. Só que não!

Na semana passada, um aluno me contou de uma entrevista de emprego em que ele participou e ficou muito decepcionado, pois o entrevistador passou um problema para ele resolver e, antes de começar, meu aluno pediu mais detalhes sobre a tarefa, querendo saber o que, exatamente, o entrevistador esperava dele como resposta ao desafio proposto. Ao invés de explicar melhor, como o aluno estava acostumado, o entrevistador disse que a entrevista estava encerrada, se despediu dele e chamou o próximo candidato. Meu aluno ficou sem entender nada, mas eu entendi tudo.

Eu percebi que estava prestando um desserviço aos alunos. Eu estava matando as habilidades cognitivas dos alunos, sua capacidade criativa e visão crítica. Eles já não estavam mais tendo suas próprias ideias. Não eram mais capazes de conceber a própria formatação do trabalho. Se acostumaram a esperar problemas bem estruturados, com todos os detalhes e regras bem estabelecidas. Obviamente não sou o único culpado, aparentemente esta é uma prática entre a maioria dos professores universitários, mas não está ajudando os alunos. Os alunos estavam ficando mal acostumados e se distanciavam cada vez mais da realidade, que está repleta de problemas mal estruturados, incompletos e complexos.

Decidi fazer uma mudança esta semana. Não dei orientações adicionais e detalhadas desta vez, pedi para eles fazerem como achassem mais adequado dentro dos objetivos do trabalho. Eles ficaram perdidos, sem saber sequer como começar. Perguntaram se eu iria mandar um email com as instruções e começaram a reclamar quando eu disse que não ia mandar nada.

Bem, os trabalhos que eles enviaram ficaram bem abaixo da média, mas pelo menos eram textos deles, de sua autoria, dentro do que eles haviam entendido. Eles não ficaram nem um pouco satisfeitos com meus feedbacks, mas pelo menos eu estava tentando ajuda-los a melhorar os textos, sabendo que a próxima entrega vai ser melhor.

Uma das equipes, em meio aos vários erros cometidos, trouxe uma nova sugestão para apresentar os resultados de um dos trabalhos exigidos. Não era nada muito radical, mas o suficiente para que a equipe se desse conta de que, com liberdade, eles poderiam definir suas próprias regras e padrões e organizar o trabalho como quiserem, e que o diferente não necessariamente é ruim. Eles me surpreenderam com uma ideia diferente para organizar o texto e reforcei com eles a importância de se manter a liberdade para que as pessoas possam criar e que a criação mal feita é melhor do que a cópia bem feita no mundo do empreendedorismo e da inovação.

Nos programas da Polifonia, os participantes são testados o tempo todo nestas habilidades e competências. Várias atividades são criadas para que os participantes falhem, entrem em conflito, com desafios para serem resolvidos com mínimo de informações e muita complexidade. O objetivo destas dinâmicas é tirar os alunos da zona de conforto, estimular suas capacidades intuitivas, o uso de recursos limitados e a capacidade de improvisar. As falhas e erros são esperados e fazem parte do aprendizado e enriquecem seus repertórios pelas experiências vividas.

Esperamos que estas práticas possam ser aprendidas por professores do ensino superior, pois mais do que transmitir conhecimento, o ensino superior precisa romper com seus paradigmas e entregar ao mundo indivíduos pensantes, que sejam capazes de interpretar a realidade e tomar decisões por conta própria. O mundo é imperfeito e não podemos criar nos alunos a ideia equivocada do que eles encontrarão lá fora. Temos que prepará-los para este mundo e não para tirar boas notas.

 

Por Marcos Hashimoto

Co-fundador da Polifonia e Professor de Empreendedorismo na Universidade de Indianapolis - EUA, consultor de negócios e especialista em inovação corporativa.

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