A jornada e o o destino

 Anderson Ferreira Lemes, Bossa Nova (2012)

Anderson Ferreira Lemes, Bossa Nova (2012)

Esta semana fui convidado para um churrasco na casa de um colega do trabalho, americano de Indiana. Eu gosto muito de churrasco e, embora não exista picanha nos EUA, os steaks são muito bons quando feitos na grelha e eu estava curioso para saber como era o churrasco americano.

Minhas informações anteriores eram de que o americano só fazia churrasco de salsicha e hambúrguer, mas aparentemente este meu amigo era um especialista gourmet, pois outros amigos que já conhecem o seu churrasco falaram que o churrasco dele é fantástico. Minhas expectativas estavam bem altas.

Resumidamente, em primeira mão, descrevo a seguir a receita infalível do seu churrasco perfeito: 4 ribeyes com 3 cm de espessura marinados com meio vidro de Stubbs Sticky Sweet por meia hora em plásticos ziplock. Ligar a churrasqueira a gás e esperar atingir a temperatura de 230 graus (450 Farenheit) – a churrasqueira vem equipada com um termômetro. Colocar os steaks, fechar a tampa e esperar 5 minutos, virar os steaks e espetar um termômetro na carne e fechar novamente a tampa. Quando o termômetro apitar, a carne chegou ao ponto ideal de 60 graus (140 Farenheit). Desligar a grelha, retirar as carnes e servir.

Enquanto nos deliciávamos com aquele ribeye que realmente ficou muito bom, olhei o meu relógio e constatei que ficamos exatamente 12 minutos na frente da churrasqueira. A churrasqueira levou mais tempo para atingir a temperatura ideal do que assando a carne.

No caminho de volta para casa minha esposa me perguntou o que eu havia achado do churrasco e tive que confessar que não tinha uma opinião formada. O produto final era fantástico, mas eu não estava bem certo se era um churrasco de verdade, pelo menos na minha concepção.

Embora eu adore churrasco e churrasquear, sou um mero amador. Todos gostam muito do meu churrasco, mas dificilmente consigo fazer dois churrascos iguais. Em primeiro lugar, eu não uso gás, uso carvão, um material de combustão mais irregular, tanto no tempo para atingir a temperatura como as diferenças de temperatura dentro da churrasqueira.

O tempero varia sempre de acordo com o que eu tenho em mãos no dia e sempre carrega uma improvisação – que nem sempre dá certo. A carne varia também e sempre tem algo novo, até legumes e frutas. Nunca usei relógio nem termômetro, sempre meu olho e tato é que me guiam e também erro bastante neste quesito.

Depois do que eu presenciei na casa do meu amigo americano cheguei à conclusão que não seria muito difícil fazer o churrasco perfeito. Procurei na internet e, com pequenas variações, achei receitas e processos muito similares. Por algum motivo, eu não estava muito empolgado em seguir estas receitas no meu próximo churrasco. Por quê?

O americano em geral é muito bom em buscar a eficiência em todos os tipos de processos. Do trabalho às tarefas de casa, da criação dos filhos a um churrasco, tudo tem um processo e um jeito perfeito de fazer as coisas, com centenas de vídeos no youtube e blogs de especialistas. A receita do meu amigo não é a receita dele, ele só replicou um processo que vários antes dele aperfeiçoaram até chegar ao churrasco ideal.

Eu não tiro o mérito da eficiência. Graças a esses vídeos, eu consegui instalar um piso na minha casa, desentupir um ralo e montar um armário. Em muitos casos não queremos errar e só nos importa um resultado final com o mínimo de erros e retrabalho, mas será que esta regra vale para tudo? Vale para fazer um churrasco?

Um verdadeiro churrasqueiro tem prazer em churrasquear. Para as pessoas, você é um bom churrasqueiro porque você proporcionou uma maravilhosa refeição, mas e para você?

Você se julga um bom churrasqueiro porque soube seguir muito bem o passo-a-passo de uma receita que alguém criou?

Para mim, a minha paixão pelo churrasco não está apenas no produto final. Se as pessoas gostam do meu churrasco, este reconhecimento apenas confirma o meu prazer pelo que eu faço. Nunca sentiria este mesmo prazer sendo o braço operacional de outros que construíram a churrasqueira perfeita, outros que criaram a marinada perfeita, outros que calcularam o tempo e a temperatura ideal para grelhar um ribeye. Não seria uma satisfação autêntica.

Minha paixão começa no dia anterior, quando vou ao supermercado escolher o que vou servir no dia, quando olho as opções de carne e decido fazer uma maminha ao invés da picanha, quando ouso colocar mel e cerveja na minha marinada e deixo curtindo a noite inteira, quando desosso a ante coxa do frango um por um, quando me arrependo de ter trocado a marca do carvão porque este demora mais pra pegar.

Minha paixão se estende ao longo do churrasco, quando, cercado por amigos e tomando uma caipirinha, acabo me esquecendo de virar a linguiça e ela fica meio chamuscada de um lado. Minha paixão vai até o último minuto quando aviso todo mundo pra guardar espaço para um abacaxi com canela no espeto de sobremesa.

Tenho absoluta certeza de que as pessoas que gostam do meu churrasco já comeram carne melhor em outro lugar, até mesmo com o meu amigo americano, mas eles gostam de ter compartilhado a jornada do churrasco comigo e deram risada das minhas maluquices e mastigaram com prazer o pedaço que ficou mais chamuscado e mentiram pra mim dizendo que o pão de alho que resolvi fazer em casa ficou ótimo, quando na verdade estava seco demais.

Se eu seguir a receita perfeita, o produto final vai ficar melhor, com certeza, só que eu não vou mais ter prazer em churrasquear.

Qualquer coisa que fazemos na vida porque queremos e não porque precisamos, deve carregar este mesmo sentimento apaixonado. Qualquer projeto, atividade profissional, hobby, voluntariado, estudo, se fazemos por paixão, vamos aprender que o ‘fazer’ é mais importante e prazeroso do que o resultado final.

Devemos buscar a eficiência e o caminho mais rápido e com menos riscos para atingir qualquer outro resultado, mas também precisamos saber que, para algumas coisas, curtir e aproveitar a jornada é mais importante do que chegar ao destino final.

É por isso que empreendedores e administradores são tão diferentes. Embora ambos conduzam negócios, o empreendedor carrega mais essa paixão dentro de si. A paixão de preparar o produto, compreender o cliente e resolver problemas é que lhe enche de energia e o motiva todos os dias.

Na medida em que o aprendizado vai se estabelecendo – e ele aprende o melhor jeito de satisfazer o seu mercado –, basta então replicar este processo e trabalhar para torna-lo cada vez mais eficiente.

É nesse momento que tocar o negócio se tornar algo aborrecedor, enfadonho, tedioso e chato.

É nesse momento que o empreendedor sai de cena e contrata um administrador para tocar o negócio. Se o empreendedor decide continuar no negócio ele se torna um empresário e aos poucos sua chama empreendedora vai dando espaço para o rigor da gestão profissional.

E por favor, não me entendam mal, nada errado em se tornar empresário. Muitos empreendedores se cansam da vida turbulenta e incerta da fase de estabelecimento do negócio.

Achar a receita do steak perfeito é o ‘Santo Graal’ de muitos deles. Quando o atinge é quando ele começa a colher os frutos de apresentar um produto ou serviço de alta qualidade e ser reconhecido e remunerado por isso.

Existe prazer em ambos os lados, você só precisa saber qual caminho trilhar: o prazer pela jornada ou o prazer de chegar ao destino final.

Por Marcos Hashimoto

Co-fundador da Polifonia, Professor de Empreendedorismo na Universidade de Indianapolis/EUA, Consultor e Especialista em Inovação Corporativa.

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