Não basta ser criativo

 Jos Zaragoza, Pássaros e flores

Jos Zaragoza, Pássaros e flores

Vários alunos me procuram com ideias 'inovadoras' de negócio, mas o fato é que a maioria dessas ideias não são verdadeiramente diferentes. Ou eles não procuram o suficiente para saber que existem ideias semelhantes, ou suas ideias são apenas pequenas variações do que já existe, não o suficiente para ser considerado ‘inovação’ pelo mercado. Muitas ideias, entretanto, são tão diferentes, tão criativas, que provavelmente não darão em nada, pois não se sustentam no quesito viabilidade.

A verdade é que os alunos não conseguem ter grandes ideias de ruptura porque a maioria deles não tem a experiência e o conhecimento mínimos em uma determinada área para ter ideias realmente inovadoras, não importa o quão criativo eles sejam.

No entanto, essa experiência e conhecimento tem dois lados. Se por um lado, a falta de experiência e conhecimento não dá nenhuma credibilidade e argumento para sustentar as ideias propostas, por outro lado, quanto mais experiência e conhecimento adquirirmos por meio de cursos, livros, trabalhando na área, com especialistas, mais difícil passa a ser pensar de forma diferente do que já existe hoje, pois nosso cérebro já está cheio de certezas, a chamada ‘xícara cheia’, não dando espaço para novas abordagens e pensamento crítico.

Portanto, é importante ter conhecimento e experiência para sabermos do que estamos falando, mas ter um espírito questionador e crítico, que dê espaço para as novas ideias.

Muita gente confunde criatividade com imaginação, por isso cabe uma breve explicação da diferença. Enquanto a criatividade é a capacidade de conectar pontos, a imaginação é a capacidade de criar pontos, não necessariamente conectá-los. A imaginação é natural do cérebro humano e, se alimentada desde criança, continua fértil enquanto adulto.

Basicamente, a criatividade é a arte de ligar os pontos. Existem dois tipos de pontos a ser ligados. O primeiro que são gerados a partir de nossa imaginação e o segundo que são gerados a partir destes conhecimentos e experiências. Quanto mais diversificados forem esses pontos mais criativas são as nossas ideias.

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Vamos usar como metáforas as bombas e pontes. As bombas explodem, rompem, criam rupturas, bagunçam e espalham tudo. As pontes conectam, ligam, unem duas partes. A imaginação é como as bombas, são necessárias para romper com o padrão existente, enquanto a criatividade é como a ponte, estabelece uma conexão entre dois ou mais pontos de forma a fazer sentido, uma ideia.

Quando você lança uma bomba, você está usando sua imaginação, gerando coisas loucas que mudam completamente o que está acontecendo agora. Quando você usa a sua criatividade, você está tentando dar um sentido à bagunça que a bomba gerou, ligando os pontos e conectando fatos, experiências, conhecimento, dados, tudo o que estava espalhado, de forma a gerar algo que seja realmente grande. Portanto, a imaginação é a matéria-prima que alimenta o processo de criatividade.

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Portanto, se você quiser ser mais criativo, aprenda duas coisas:

  1. Fazer conexões. Quanto mais incomuns e estranhas, melhor. Você deve saber como criar uma ligação entre o funeral de sua tia querida com a nova marca escova de dentes lançada no mercado. Grandes conexões criativas unem duas ou mais coisas em sua memória que não tem nada a ver uma com a outra.
     
  2. Aumentar o número e a variedade destes pontos em sua mente, ou seja, o seu repertório de bombas. Para isso, viva diferentes experiências, aprenda outros idiomas, conheça pessoas de outras culturas, viaje para países exóticos, visite museus de arte ou museus históricos, leia sobre assuntos incomuns, saia para mochilar em outro país e várias outras coisas que não tem nada a ver com sua vida atual, nem a sua ideia de negócio futuro, mas vai ajudar a preparar seu cérebro pronto para o próximo passo: a inovação.

A inovação acontece quando percebemos que, por trás de algumas dessas conexões, existe algum valor: um propósito, um resultado tangível, uma função. É este valor que diferencia a criatividade artística da criatividade inovadora, hoje chamada de design. As artes expressam o mundo por meio da sensibilidade do autor, enquanto a inovação sempre tem um valor percebido pelos outros.

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Quando a inovação acontece, os pontos conectados abrem caminhos para inúmeras possibilidades de gerar valor. É por isso que a maioria das inovações vêm de laboratórios científicos. Estes são os lugares onde novos conhecimentos estão sendo gerados, portanto, com mais possibilidades de gerar novas conexões relevantes.

Quando temos imaginação e conhecimento novo, desenvolvemos nossa capacidade de conectar estes pontos e um mundo de novos caminhos a serem explorados se descortina.

Por fim, os negócios inovadores acontecem quando surge um caminho para transformar este valor percebido em uma corrente contínua de receitas e crescimento. É importante saber que todo esse fluxo de negócios inovador não está necessariamente em uma única pessoa ou empreendedor.

Pode-se ser imaginativo, mas sem experiência ou conhecimento, não conseguirá fazer conexões significativas.

Se você tem tudo isso, mas não tiver habilidades de negócios, sua inovação vai ficar presa em um laboratório ou no máximo em uma patente e você vai se contentar com os royalties recebidos de uma grande corporação que utiliza sua patente.

Protagonismo se dá com um conjunto de pessoas com essas habilidades diferentes que se unem para construir este projeto inovador, cada um deles contribuindo com sua própria maestria que complementa a de outras pessoas.

Se a sua equipe tiver: 1 pessoa com rica imaginação (bomba), 1 pessoa com muito conhecimento (um pesquisador), 1 pessoa com muita experiência prática, 1 pessoa criativa (ponte) e 1 pessoa com visão de negócio (administrador), então você está pronto para liderar a próxima inovação de ruptura que pode mudar o mundo.

Por Marcos Hashimoto

Co-fundador da Polifonia, Professor de Empreendedorismo na Universidade de Indianapolis/EUA, Consultor e Especialista em Inovação Corporativa.

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